Histórias do esporte

Uma função que muitos não lembram que existiu : conheça a posição que acabou no futebol

Por Renato Lima

Muitas coisas na vida são cíclicas, e o futebol, não escapa dessa máxima. Dentre os mais variados aspectos do jogo, diversas nuances são transformadas ao longo do tempo, seja pela evolução do esporte – dentro e fora de campo – seja por novas táticas incorporadas ao jogo. Dentre uma dessas mudanças, é observado o desaparecimento de uma posição muito presente no futebol da primeira metade do século XX até os anos 90 : o líbero. Nos dias de hoje, esse função é rapidamente associada à um goleiro com ótimas habilidades com os pés e que constroe o jogo desde a saída de bola, um zagueiro que também possui uma ótima saída de bola e assim se porta como um armador, ou até mesmo um primeiro volante, camisa 5, que possui essas mesmas valências já citadas e assim faz parte de uma grande engenharia de consturção de jogo. Porém, nas décadas referidas acima, essa associação da palavra “líbero” era completamente diferente.

A palavra “líbero” vem do italiano “libero” que significa livre, ou seja, já era uma posição que partia de premissas mais liberais dentro do jogo. Essa função surgiu como uma alternativa para o estilo de jogo que se praticava na época, onde a formação mais tradicional eram 3 zagueiros, 2 meio-campistas e 5 jogadores mais ofensivos, a qual estrutura ficou conhecida como WM. Dentro dessa formatação, o líbero surgia incialmente como o homem que jogava atrás dos outros 2 zagueiros e da linha tradicional de defesa a fim de fazer coberturas e cobrir espaços da linha de zaga, mas que ao mesmo tempo também não tinha obrigação de fazer uma marcação individual, algo muito comum nesse tempo.

Nos primóridios de sua criação, o líbero foi usado tanto na formação “WM” como em uma linha de quatro defensores. A concepção dessa nova posição nos remete aos anos 30 e 40, quando o técnico suíço Karl Rappan posicionou um defensor entre o goleiro e os 3 zagueiros à sua frente, responsável por cobrir os seus defensores e com uma função “rebatedora”, o que ficou conhecido como o “sistema verrou”, no português, o “ferrolho”. Após o técnico implementar essa ideia de um defensor livre que ficava atrás de defensores com posições pixas em seus clubes, Servette e Grasshopper, a seleção suíça, também comandada por Rappan, eliminou a Alemanha de Hitler na Copa de 1938 com esse sistema defensivo forte e com um jogador em uma posição inovadora.

Anos depois, na década de 50, surge uma nova escola de pensamento de jogo no futebol italiano, o Catenaccio. Traduzida para o português como “tranca”, esse estilo de jogo que tomou conta do futebol da Itália se caracterizava por uma solidez defensiva e pela ênfase em contra-ataques rápidos. Influenciado pela a ideia de Karl Rappan, a posição de líbero chegava no futebol da Bota pelo treinador Ottavio Barbieri no seu time do Genoa de 1946. Entretanto, o Catennacio e o líbero ficaram mais famosos no futebol italiano através do Milan de Nereo Rocco e pela Inter de Milão de Helenio Herrera.

Ambos eram times muito defensivos e que refletiam as ideias do Catenaccio em sua mais pura essência. Nereo Rocco já havia utilizado das propostas desse modelo de jogo em seus clubes anteriores ao Milan (Triestina e Padova), onde o italiano adotava um 1-3-3-3, com pouca posse de bola, marcação individual rígida e contra-ataques rápidos. Ele também varia seu esquema para 1-4-4-1 ou 1-4-3-2, porém sempre com a figura do líbero entre o goleiro e a linha de defesa. Utilizando de seu sistema Catenaccio no Milan, Rocco conquistou 2 títulos da Série A, 3 títulos da Coppa Italia, 2 Copas Europeias, 2 Recopas Europeias e 1 Copa Intercontinental, o que provava o quanto esse formato teve impacto no futebol europeu do século XX.

O treinador argentino Helenio Herrera também foi um dos revolucionários do futebol italiano dos anos 60, trazendo consigo a alcunha como um dos principais responsáveis pela representantes do Catenaccio. Ele usava a formação 5-3-2, onde recuou o capitão do time, Armando Picchi, para a função de líbero, onde 4 defensores de marcação individual eram designados firmemente aos atacantes adversários, enquanto o líbero, pegava qualquer bola solta que escapasse da cobertura dos defensores. Apesar de seus aspectos defensivos, essa esquadra da Inter ganhou 3 Campeonatos Italianos, 2 Liga dos Campões e 2 Copa Intercontinentais. E mesmo com esses títulos, Herrera era constantemente criticado por seu time ser considerado defensivo demais, e uma frase do treinador argentino ficou famosa na representação desse estilo de jogo: “O problema é que a maioria dos que me copiaram me copiou erroneamente. Eles esqueceram de incluir os princípios de ataque que meu Catenaccio incluía. Eu tinha Picchi como volante, sim, mas eu também tinha Facchetti, o primeiro extremo a marcar tantos gols como um atacante”.

Conforme o futebol ia evolundo, as ideias em torno do líbero também seguiam essa evolução. Ainda na década de 60, outro nome que se destacou como um dos primeiros líberos com grande qualidade com a bola no pé foi o inglês campeão mundial de 1966, Bobby Moore. Tido como um dos maiores jogadores da história do futebol inglês, com a sua visão de jogo e qualidade técnica, se tornou um jogador criativo e ao mesmo tempo um excelente marcador, sendo fundamental para a conquista da Copa de 1966. Dessa forma, o líbero já incoporava novos elementos para o jogo e assim novas atribuições para o mesmo.

E é na década de 70 que o papel dessa posição muda completamente na figura de um jogador histórico e o maior nome que representa essa função: Franz Beckenbauer. Dono de 2 Bolas de Ouro, mesmo tendo sido um jogador com atribuições mais defensivas, o alemão que começou como um volante, muda o papel de um líbero no jogo de futebol. Como o futebol europeu da época elegia o líbera como um jogador “destrutivo” e marcador, com sua grande qualidade técnica, Beckenbauer disputou 2 Copas do Mundo (1966 e 1970) como volante, correndo todo o campo e marcando gols – tendo na Copa de 70 a lendária imagem do alemão jogando a semifinal contra a Itália com uma tipoia no braço após ter o ombro deslocado.

Helmunt Schön, treinador da Alemanha na época, considerava um “desperdício” ter um jogador com a técnica e o refino de Beckenbauer em uma função de imposição física e marcação. Porém, é no Bayern de Munique, que o “Kaiser” começa a dar seus primeiros passos na função de líbero. E um jogador com a inteligência desse alemão, não seria apenas mais um destruidor de jogadas. É nas mãos deles que essa função toma um novo sentido, uma vez que Beckenbauer não só fazia o trabalho mais defensivo na cobertura da zaga, ele passou a ser mais um armador quando o time tinha a posse de bola. Ele tinha a liberdade de ser o primeiro organizador de jogadas da equipe, se transformando em um meio-campista com a bola e até mesmo em atacante dependendo da jogada. E quando a equipe não tinha a bola, ele era o responsável em organizar a marcação da linha de zaga e fazer as coberturas de seus companheiros de defesa. Era um jogador do futebol moderno na década de 70.

Nessa nova função, Franz Beckenbauer o capitão do Bayern de Munique tricampeão europeu (1974,75 e 76) e da seleção alemã campeão da Eurocopa de 1972 e da Copa do Mundo de 1974 na final contra a Holanda de Johan Cruyff.

Nos anos 80, essa função passava a ser vista em outra seleção campeã de Copa do Mundo, a Itália em 1982. A esquadra do técnico Enzo Bearzot, algoz da grande geração da seleção brasileira de 82, tinha na figura de Gaetano Scirea, um líbero que é considerado como um dos melhores da história nessa função. Com um sistema de defesa sólido e contra-ataques rápidos, a Itália contava com um líbero técnico e elegante, que organizava a defesa e era um construtor de jogo a partir de trás. Além da seleção italiana, Scirea foi um grande ídolo da Juventus e possuia o recorde de número de partidas disputadas pela Vecchia Signora, sendo ultrapassado por Alessandro Del Piero nos anos 2000. Na Juventus, o líbero italiano foi campeão da Liga dos Campeões em 1985 exercendo essa função, além de 7 Campeonatos Italianos, 2 Copas da Itália, 1 Recopa, 1 Supercopa da Europa, 1 Copa da Uefa e 1 Mundial Interclubes.

Gaetano Scirea é tido como o antecessor na posição do grande Franco Baresi, que anos depois também faria história pelas cores do Milan. Considerado por muitos como um dos maiores defensores da história do futebol, Baresi é visto como o último grande líbero. Sua inteligência tática, técnica refinada e liderança entre o final dos anos 70 até meados do anos 90, o credenciaram como um dos principais nomes do Milan multicampeão nesse período e que revolucionou a defesa com linha alta e pressão intensa, tornando a posição do líbero mais dinâmica e moderna. O time milanista do técnico Arrigo Sacchi, bicampeão da Liga dos Campeões em 1989 e 1990, potencializaram as grandes qualidades de Franco Baresi em um sistema de marcação por zona , mantendo uma linha defensiva alta e jogando na linha do impedimento. O passe e a habilidade técnica de Baresi, permitiam que ele avançasse para o meio-campo para começar a atacar jogadas de trás, fazendo com que o mesmo funcionasse como um armador secundário e também jogar como meio-campista defensivo ou central quando necessário. Campeão mundial em 82 com Gaetano Scirea, Baresi era o capitão da selção italiano que perdeu a final da Copa do Mundo de 1994 para o Brasil.

Durante a década de 90, com o fim da marcação individual e a adoção da marcação por zona, essa posição de líbero foi desaparecendo, dando lugar a novas interpretações das características de um líbero mas em outras posições. Um dos fatores que ajudaram para esse fim foi o fato de jogadores com qualidades do grandes líberos já citados anteriormente, serem distribuídos em outras funções no campo de jogo, principalmente do meio-campo para frente. À medida que o jogo evoluiu, as características das posições também foram mudando, apoiando a ideia de que jogadores não foram sendo mais moldados para um estilo de jogo de um líbero.

Nos úlimos anos, a função do jogador criativo e que joga recuado para armar o time se foi dada ao volante, conhecido como “elemento surpresa”. Também se é observado o fenômeno recente que para ter mais qualidade técnica na defesa é o fato de volantes serem recuados para a zaga, pensando na saída de bola da equipe. Ainda assim, eles não avançam, pois, devido à evolução dos esquemas táticos, ter um defensor que se aventura no ataque representa um perigo para um contra-ataque. O volante acaba acumulando diversas funções na equipe, já que ele tem que marcar, organizar, armar, pegar as sobras, lançar, dividir. Ele rege o time. Os gatilhos de pressão e avanço são dado por eles, tendo assim claro, os atributos recebidos da função de líbero. Seja um volante que marque e saia para o jogo, seja um zagueiro com uma ótima saída de bola e leitura de jogo, o líbero hoje também é muitas vezes atribuído ao goleiro, já que no futebol atual, se tornou quase uma necessidade desse jogador saber jogar com os pés.

Fruto da evolução do jogo, o fim da posição de líbero marca também um capítulo importantíssimo da história do futebol, porque além de ser uma semente para germinação de novos atributos para o jogo, foi um divisor de águas para as ideias de jogo serem cada vez mais destrinchadas e estudadas para a criação de craques do futebol.