Histórias do Esporte

O EMPURRÃO PARA UMA MEDALHA QUE FICOU NA HISTÓRIA

A Incrível recuperção de Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona das Olimpíadas de 2004

Por Renato Lima

O quanto vale o peso de uma medalha de bronze? Mas e o peso de perder o ouro olímpico? Essas perguntas podem ser feitas para todas as pessoas no mundo, porém só os atletas olímpicos podem nos trazer respostas que misturam vivência e emoção. Apesar da ambiguidade presente nas perguntas acima, o esporte nos traz ensinamentos a cada dia que confirmam o quão especial podem ser os momentos proporcionados por ele. Uma dessas pessoas que tem essa ligação especial com o esporte é o ex-maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima. De origem humilde, Vanderlei sempre viu no esporte uma forma de mudar sua realidade da lavoura com sua família. Como a maioria esmagadora dos brasileiros, ele enxergava o futebol como sua principal paixão, porém, foi na adolescência que ele encontrou o seu amor: a corrida.

Inicialmente, Vanderlei admitiu que usava o esporte apenas como carona para poder viajar. E foi assim, que de competição em competição, a corrida foi se transformando em maratona e que após os inciais 21km de distância, ele passou a se dedicar apenas à prova dos 42km. Assim, depois de vencer a Maratona de Tóquio em 1996, o menino que muitas vezes não tinha o que comer depois de horas ajudando os pais em uma lavoura no interior do Paraná, chegava à sua primeira Olímpiada. Sua primeira participação foi nos Jogos Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996. Após uma prova com problemas com seu tênis de corrida e mais de 2 horas e 21 minutos, o brasileiro ficou em 47º lugar.

Nos anos seguintes, Vanderlei continuou alcançando resultados muito positivos para o atletismo brasileiro, chegando à medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, em 1999. À aquela altura, Vanderlei já se colocava entre os grandes nomes da história da modalidade no país. Com essa bagagem, o brasileiro chegou na sua segunda Olimpíada em 2000, na cidade de Sydney, na Austrália. Porém, passadas 2 horas e 37 minutos, e uma inflamção no pé junto com uma lesão mal curada, o maratonista amargou apenas o 75º lugar na prova dos 42km.

No caminho para o seu terceiro ciclo olímpico e ciente de sua capacidade física, Vanderlei já imaginava que a cidade de Atenas, na Grécia, em 2004 seria a sua última chance de disputar a sua tão sonhada medalha olímpica. Dessa forma, o paranaense se preparou como nunca com seu técnico de toda a carreira, Ricardo D’Angelo, e continuou obtendo resultados favoráveis como a vitória na Maratona de São Paulo  em 2002 e o bicampeonato pan-americano em 2003. Após os 4 anos de preparação e provas, chegava o dia 29 de agosto de 2004 com ele o momento que todo atleta olímpico sonha: a coroação de uma medalha olímpica.

Vanderlei começa bem a prova e consegue administrar a competição com a principal ameça para a sua medalha de ouro, o Paul Tergat do Quênia. Passam pouco mais de 35m e o brasileiro se mantia em primeiro lugar na prova, quando com 7km para o fim e 25 segundos de vantagem para o segundo lugar, acontece algo que mudaria a história dos Jogos Olímpicos. Vanderlei Cordeiro de Lima é atacado por um fanático religioso, o ex-padre irlandês Cornelius Horan que o jogou para fora da pista. Com a ajuda de um espectador grego, o paranaense consegue voltar para a prova em primeiro lugar mas com a sua concentração abalada, o que o faz ser ultrapassado pelo italiano Baldini e pelo norte-americano Meb Keflezighi nos últimos quilômetros finais de prova.

Muitos poderiam ter desistido e nem sequer completado a prova, porém Vanderlei seguiu e ao entrar no estádio Panatenaico para a linha de chegada foi ovacionado pelo público e um largo sorriso se abriu em seu rosto. O semblante era de um campeão olímpico, que do interior do Paraná, filho de imigrantes nordestinos que trabalhavam na lavoura em busca de um sustento, via seu nome ser eternizado não só no quadro de medalhas do Brasil, mas também em uma das maiores histórias de superação do esporte mundial. Muitas pessoas não gostam de aderir a icônica máxima do Barão Pierre de Coubertin: “O importante não é vencer, mas competir”, porém diante de tamanha adversidade não só na prova, como na vida, é quase impossível dizer que Vanderlei de Lima não venceu. O seu sorriso simples e a humildade que sempre o acompanhou durante toda a sua vida nunca vão deixá-lo se sentir um derrotado, afinal nenhuma condecoração é do tamanho da luta desse maratonista brasileiro.

A comprovação material de que essa máxima se faz verdadeira, se deu quando no encerramento dos Jogos Olímpicos de 2004, foi anunciado que Vanderlei seria condecorado com a medalha Pierra de Coubertin, a qual se é concedida para aqueles que demonstram um elevado grau de esportividade e personificam o espírito olímpico. Essa honraria só foi entregue para apenas 6 atletas olímpicos em toda a história, o que traduz ainda mais a vitória do maratonista. Além de todas as posteriores honrarias – Prêmio Adhemar Ferreira da Silva, Atleta Brasileiro do Ano de 2004 -, Vanderlei foi o escolhido para ter a honra de acender a Pira Olímpica nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, na 1ª edição dos Jogos Olímpicos no Brasil.

Em uma sociedade materialista e resultadista, essas palavras podem ser apenas palavras. Medalhas podem ser apenas medalhas, isso se não forem douradas. Porém, dado não só o exemplo do Vanderlei Cordeiro de Lima, nessa mesma sociedade descrita acima, a desigualdade social e a falta de oportunidades também são realidades que moldam o país em que vivemos. Enquanto a cada 4 anos, se é cobrado resultados do atletas brasileiros, que muitas vezes não possuem o investimento necessário, um Vanderlei Cordeiro de Lima precisa deixar o esporte para trazer sustento para a sua família. Então, o esporte nunca vai ser só mais uma prova, mais uma medalha. O esporte é a salvação para muitos jovens fugirem da difícil realidade que vivem e assim engrandecer o próprio nome e o nome de um país tão diverso. Por mais Vanderleis e história que nos façam acreditar na força transformadora de vidas chamada esporte.