Histórias do Esporte

A Saúde Mental nos esportes:  a importância da psicologia esportiva no alto rendimento

Por Renato Lima

Em tempos de redes sociais e opiniões sobre tudo, em uma competição de alto rendimento, para muitos, quando uma equipe ou um atleta não alcança o 1º lugar, já de se haver questionamentos sobre um culpado. Essa necessidade de sempre se achar um culpado é uma característica muito forte da cultura esportiva brasileira, porém, também há de se dizer, que isso não é uma exclusividade nossa. Os exemplos mais claros e recorrentes sobre isso são vistos durante uma Copa do Mundo de futebol. Tendo a alcunha de “o país do futebol”, criou se uma cultura de que, com excessão do time campeão, todas as outras seleção são eliminadas, porém apenas o Brasil perde a Copa. E nesses casos, em toda derrota se tende a achar um culpado, excluindo até mesmo os méritos do adversário.

Muitos desses atletas que saem como “culpados”, buscam na psicologia um caminho para lidar com a pressão de um país inteiro sobre suas costas. Porém, a psicologia esportiva é muito mais que só uma maneira de lidar com a pressão de uma derrota. De um ponto de vista mais geral, ela é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais de cada pessoa. E no âmbito esportivo, a psicologia assume um papel de oferecer contribuições para o rendimento de atletas e equipes, tratando das emoções e estruturas mentais dos mesmos a fim de alcançar não só o êxito esportivo como pessoal.

Existe uma máxima muito famosa no meio esportivo chamada “no pain no gain”, que traduzida para o português, é vista como “sem dor, sem ganho”, na qual se traduz a ideia de que se é necessário passar por sacrifícios e dores durante o caminho para alguma meta. E na grande maioria dos exemplos, essa frase realmente se mostra verdadeira. Porém, com todas as novas dinâmicas que a sociedade e o esporte vem vivenciando nos últimos anos, não foram poucos os casos em que essa máxima foi elevada à um nível que era nociva ao atleta. Pode ser necessário passa por dores e sacrifícios para ganhar, porém não à qualquer custo. Se há a necessidade de estabelecer um limite para que não só a vida esportiva desse atleta não seja prejudicada, como também a sua vida pessoal.

Um ponto chave em situações como a descrita anteriormente é o estigma da sociedade que em anos atrás não reconhecia e não tratava sobre esse tipo de dor psicológica. Diversos atletas sofreram calados por longos períodos, uma vez que mostrar vulnerabilidade em um momento de competição não era bem visto pelos adversários, os quais já associariam à um exemplo de pessoa frágil ou fraca. Não são poucos os exemplos de esportista que desenvolveram problemas em relação à saúde mental, sofreram calados e que por isso acabaram não pedindo ajuda, prejudicando não só seu desempenho esportivo durante o seu tempo ativo, como as cicatrizes mentais que perduram até o pós-carreira.

Os estigmas e preconceitos sociais eram pilares sólidos que impediam diversos atletas de se expressar sobre esse assunto, já que a pressão por resultados, o medo do fracasso e a exposição midiática já o acompanham desde o início da carreira. Para romper a barreira do silêncio sobre esse tabu era necessário um exemplo muito grande para o inicío da valorização desse debate. E é nesse caso que entra a ginasta americana Simone Biles.

Uma das maiores e mais premiadas ginastas de todos os tempos, Simone Biles pegou o mundo do esporte de surpresa ao anunicar que deixaria de competir durante as Olimpíadas de Tóquio em 2021 para cuidar de sua saúde mental. Outros atletas já haviam abordado esse tema, porém, foi com uma atleta do peso de Biles que fez o mundo parar para refletir sobre essa temática. Ela anuniciou a decisão após ter sido afetada pelos chamados “twisties”, uma perda repentina de orientação espacial que as ginastas podem sofrer ao girar no ar, deixando de responder aos movimentos, mesmo os mais simples, de uma forma rápida e precisa.

“Eu fiz várias terapias, e pensei: ‘Não estou funcionando direito? Como não estou melhorando? Já se passaram oito semanas! Como isso não está funcionando?’ E, então, eu penso: esta jornada de saúde mental, provavelmente estarei nela pelo resto da minha vida. E tudo bem, porque cada pessoa é única.”, contou Biles em um evento de uma empresa gigante de software em 2024.

Além da americana, outros atletas também já abordaram esse assunto, entre eles o surfista brasileiro Gabriel Medina e a tenista japonesa Naomi Osaka. O brasileiro decidiu não competir nas 2 primeiras rodadas do circuito da Wsl em 2022 a fim de cuidar de sua saúde mental e física. Ao anunciar a decisão, Medina também citou o receio de tornar o motivo público: “Reconhecer e admitir para mim mesmo que não estou bem vem sendo um processo muito difícil. […] Me questionei muito nos últimos tempos se deveria tornar isso público ou manter de forma privada.”

No caso de Naomi Osaka, a tenista desisitu das dispustadas dos torneios de Roland Garros e Wimbledon em 2021, anunciando através de uma carta que expunha suas depressão e ansiedade, e dificuldade em lidar com compromissos extra-quadra, como o atendimento à imprensa. Foi um caso que também teve grande repercursão no período, ao chamar a atenção sobre a importância do acompanhamento psicológico dos atletas no mesmo grau de importância que o físico.

Com novos debates sobre a saúde mental no esporte aliados à tecnologias e inovações dentro da ciência, novos instumentos e ferramentas em relação ao treinamento, nutrição, medicina esportiva e reabilitação foram sendo desenvolvidas.