Calotes, expulsão de jogador errado, seleção com outro nome: a história da única participação em Copas da República Democrática do Congo

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Por Renato Lima

Depois de derrotar a Jamaica por 1 a 0 na prorrogação da repescagem internacional, a República Democrática do Congo carimbou a vaga para a tão sonhada Copa do Mundo de 2026 e fez das ruas da capital, Kinshasa, o palco de uma festa aguardada há muitas décadas. Apesar de muitos acharem que essa será a primeira participação do país em mundiais, há 52 anos, o Congo estreou em uma Copa, disputada na Alemanha Ocidental, porém usando outro nome. 

Em 1974, o país era governado pelo ditador Mobutu Sese Seko, que rebatizou o território como Zaire após tomar o poder em 1971. Apaixonado por futebol, Mobutu prometeu que, se a vaga para a Copa de 1974 fosse conquistada, os jogadores ganhariam carros, casas e férias no exterior. Depois de conquistar o título da Copa Africana de Nações de 1974 (competição que garantia a classificação direta para o Mundial na época), derrotando a Zâmbia na final, Zaire viajou para a Alemanha como único representante do continente africano no torneio.

Foto: Desconhecido

Um fato histórico sobre essa classificação é que Zaire se tornou a primeira seleção da África Subsaariana a participar de uma Copa, já que Egito (1930) e Marrocos (1970) tinham sido os únicos representantes da região do Norte da África a disputar um Mundial. Além disso, Zaire também ficou marcado pelo seu icônico uniforme utilizado tanto na Copa Africana de Nações quanto na Copa do mesmo ano. 

A camisa utilizada por Zaire, primeiramente na Copa Africana de Nações de 1974, tinha um tom verde marcante e um leopardo, animal símbolo do país e que era o favorito do ditador Mobutu Sese Seko. O líder se aproveitou muito desse símbolo para estabelecer ainda mais o seu poder durante o regime e tentar fazer o país voltar às suas raízes depois de vários anos de colonização belga. Para a Copa do Mundo na Alemanha, o uniforme usado na Copa das Nações Africanas precisou de algumas mudanças devido à troca da fornecedora de material esportivo da seleção, que passou a ser a Adidas, que substituiu o logo da antiga sigla Coq Sportif pela sua logomarca, além de mudar o contorno do uniforme, já que as listras em vermelho e verde deram lugar para as listras em amarelo.

No Mundial, a seleção africana foi sorteada para um grupo difícil, que contava com o Brasil, atual campeão do mundo, Escócia e Iugoslávia. Dada a disparidade técnica entre Zaire e as outras seleções, o otimismo da estreia deu lugar a muita preocupação. No primeiro jogo, derrota para os escoceses por 2 a 0 e uma notícia inesperada: os jogadores descobriram que tinham sido enganados, pois os dirigentes não liberaram o dinheiro e avisaram que os prêmios não seriam mais pagos. Com isso, os atletas ameaçaram entrar em greve, porém acabaram voltando a campo com o intuito de denunciar, de alguma forma, a ditadura presente no país. 

Na segunda rodada, uma goleada sofrida para a Iugoslávia trouxe mais acontecimentos inusitados. Um zagueiro de Zaire deu um pontapé no árbitro, que, por engano, expulsou outro jogador, mesmo o defensor assumindo a sua responsabilidade pelo lance. Não bastasse a expulsão, o técnico zairense ainda substituiu seu melhor jogador e o goleiro. O resultado foi um sonoro 9 a 0 para a Iugoslávia, que se tornou a segunda maior goleada da história dos Mundiais. E não para por aí, já que o ditador Mobutu Sese Seko prometeu que, se os jogadores de Zaire perdessem por quatro gols de diferença para o Brasil, seriam mortos ao voltar para o país. 

Com toda a tensão que envolvia o jogo, Zaire chegava para enfrentar o atual campeão, Brasil, na terceira rodada da Copa, na Alemanha. Com gols de Jairzinho, Rivellino e Valdomiro, a seleção brasileira venceu com facilidade por 3 a 0, mas com novos episódios curiosos. O mais lembrado, sem dúvida, aconteceu quando o defensor Ilunga Mwepu saiu da barreira e chutou a bola antes da cobrança de falta de Rivellino. Anos depois, o jogador explicou que se tratava de um protesto em meio ao caos vivido pela delegação. Após os três gols, os zairenses voltaram vivos para casa, mas foram impedidos de jogar no exterior posteriormente e acabaram vivendo na pobreza. 

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O ditador Mobutu Sese Seko permaneceu no poder até 1997, quando foi deposto por forças opositoras, no conflito que ficou conhecido como a Primeira Guerra do Congo. Esse evento levou a uma nova mudança de nome, e o país voltou a se chamar República Democrática do Congo, se mantendo até hoje com essa nomenclatura. Em 2006, outro grande conflito foi registrado no país, que nunca mais chegou perto de se classificar para uma Copa do Mundo. Porém, muitos brasileiros lembram do maior feito da história de um clube congolês, que foi quando o Mazembe jogou o Mundial de Clubes de 2010 e eliminou o Internacional na semifinal ao vencer por 2 a 0. Na final, os africanos foram derrotados pela Inter de Milão, com gols de Pandev, Samuel Eto’o e Biabiany. 

Nesta Copa do Mundo de 2026, a República Democrática do Congo estará no Grupo K, ao lado de Colômbia, Uzbequistão e Portugal. Os congoleses estreiam no dia 17 de junho contra os portugueses, em Houston; depois, vão à Guadalajara enfrentar a Colômbia, no dia 23 de junho; e encerram a fase de grupos contra o Uzbequistão no dia 27 de junho. 

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